SAÚDE MENTAL E BEM-ESTAR DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS: FATORES DE RISCO, PROTEÇÃO DE AMBIENTE ACADÊMICO


MENTAL HEALTH AND WELL-BEING OF UNIVERSITY STUDENTS: RISK FACTORS, PROTECTION, AND ACADEMIC ENVIRONMENT


Luana Kateryne Carvalho Ferreira, Universidade do Estado de Mato Grosso. Mato Grosso–MT ORCID 0009-0007-1515-719X

Poliany Cristiny de Oliveira Rodrigues, Universidade do Estado de Mato Grosso. Mato Grosso–MT ORCID 0000-0002-9225-8935


RESUMO:

O estudo teve como objetivo analisar a saúde mental e o bem-estar de estudantes universitários, identificando fatores de risco e proteção relacionados à vida acadêmica. A pesquisa ocorreu em dois momentos, com intervalo de dois semestres (2023-2024) em uma universidade no interior de Mato Grosso. Na primeira avaliação participaram 132 estudantes e, na segunda, 76. Predominaram jovens do sexo feminino, menores de 25 anos e com renda de até quatro salários mínimos. Utilizaram-se questionários estruturados, abrangendo dados demográficos, condições de saúde, hábitos de vida, desempenho acadêmico e sintomas psíquicos. A análise foi de forma online, onde seguiu métodos estatísticos descritivos e testes de associação, garantindo princípios éticos de consentimento e confidencialidade, utilizando-se o termo de consentimento. Os resultados apontaram prevalência de ansiedade, insônia e cansaço, além de ocorrência minoritária de automutilação e ideação suicida. A renda familiar e a presença de filhos mostraram associação significativa com sintomas de transtornos mentais. O respeito de professores e colegas apresentou correlação positiva com satisfação acadêmica, autonomia nos estudos e qualidade de vida. Conclui-se que fatores socioeconômicos e relacionais influenciam diretamente a saúde mental dos estudantes, evidenciando a necessidade de ações institucionais que promovam bem-estar e favoreçam um ambiente acadêmico acolhedor.

Palavras-chave: Saúde Mental, Estudantes Universitários, Ambiente Acadêmico.


ABSTRACT:

The study aimed to analyze the mental health and well-being of university students, identifying risk and protective factors related to academic life. The research was conducted in two stages, with an interval of two semesters (2023-2024), at a university in the interior of Mato Grosso, Brazil. The first evaluation included 132 students, while the second involved 76. The sample was predominantly female, under 25 years old, and with a family income of up to four minimum wages. Structured questionnaires were applied, covering demographic data, health conditions, lifestyle habits, academic performance, and psychological symptoms. Data collection was carried out online and analyzed using descriptive statistics and association tests, while ensuring ethical principles of informed consent and confidentiality through the use of a consent form. The results indicated a high prevalence of anxiety, insomnia, and fatigue, as well as a minor occurrence of self-harm and suicidal ideation. Family income and having children showed a significant association with symptoms of mental disorders. Respect from professors nad peers demonstrated a positive correlation with academic satisfaction, study autonomy, and quality of life. It is concluded that socioeconomic and relational factors directly influence students’ mental health, highlighting the need for institutional actions to promote well-being and foster a supportive academic environment.

Keywords: Mental Health, University Students, Academic Environment.

INTRODUÇÃO

O ingresso na universidade é um dos momentos em que o jovem-adulto busca por uma formação profissional, e com este momento, os estudantes universitários passam a ter diversas responsabilidades após esta ingressão (Penha; Oliveira; Mendes, 2020). A qualidade de vida destes estudantes universitários é um dos temas mais discutidos na atualidade, principalmente no que tange à saúde e à educação (Freitas et al., 2023). A vida acadêmica é uma constante experiência que pode variar em diversos campos, podendo afetar o seu ambiente familiar como mudança da sua cidade para a cidade onde se localiza a universidade, o seu interpessoal promovendo o amadurecimento, maior autonomia e relações afetivas (Barros; Peixoto, 2022).

No âmbito da universidade, a saúde mental tem se revelado um dos assuntos mais discutidos, pois se nota que os quadros de estresse, ansiedade, depressão, tentativas de suicídio, estão cada vez mais presentes e com maiores prevalências entre os estudantes universitários (Menegaldi-Silva et al., 2023; Souza et al., 2022). Tais principais sintomas são aparentes desde o primeiro ano de ingresso na universidade. Isso pode acontecer, provavelmente devido a novas rotinas, que podem ou não ser estressoras para o estudante, de exigências e sobrecargas às quais ainda não estavam acostumados (Sahão; Kienen, 2021). Caso ocorram situações de estresse, há uma necessidade de adaptação, ou seja, o estudante deverá desenvolver novas habilidades ou ferramentas, as quais lhe serão necessárias para os enfrentamentos de circunstâncias estressoras (Sousa et al., 2022). No entanto, dentre os fatores associados a tais sintomas, alguns estudos apontam fatores ou características sociodemográficas, como sexo, idade, orientação sexual, cor da pele, estado civil, religião, renda, moradia e emprego, analisando a sua associação com os Transtornos Mentais Comuns (TMC; Gomes et al., 2020; Lopes et al., 2022).

Desta maneira, é importante compreender a integração acadêmica e social dos estudantes no contexto universitário para o seu bem-estar psicológico, bem como a abordagem da promoção da saúde mental pelas instituições de ensino superior. Essa discussão leva em consideração a necessidade de intervenções com aspectos psicossociais e contextuais, como relacionamentos familiares, renda familiar, prática de atividade física e participação em grupo social, que também podem influenciar a saúde mental dos estudantes (Barros; Peixoto, 2022).


METODOLOGIA

Trata-se de um estudo do tipo observacional descritivo, realizado por meio de inquérito por questionário, no período de 2023 a 2024, com estudantes universitários de cursos de graduação de

Ciências da Saúde da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT. Este estudo é um seguimento do projeto de pesquisa já em andamento intitulado —Avaliação da Saúde Física e Mental dos Estudantes da Universidade do Estado de Mato Grosso‖. O mesmo iniciou-se com a criação do projeto-piloto, seguido pela formalização do Projeto Muita Pressão em 2022. Tais etapas anteriores contribuíram para a definição das variáveis investigadas, a escolha e a validação dos instrumentos de coleta dos dados, bem como para a estruturação do desenho metodológico adotado no estudo atual.

Em março de 2023, foi introduzido o Projeto Guarda-Chuva Saúde Mental, ampliando o escopo da investigação e possibilitando o monitoramento sistemático dos indicadores de saúde mental dos estudantes. Em maio do mesmo ano, ocorreu a implantação do site e do aplicativo associados à iniciativa. No mês seguinte, junho de 2023, registrou-se a fase de divulgação do projeto, enquanto agosto foi marcado pelo início do recrutamento dos participantes e a realização da primeira etapa (primeiro semestre avaliado). Por fim, em março de 2024, foi realizada a segunda etapa (segundo semestre avaliado), consolidando o ciclo inicial de monitoramento e implementação das ações previstas pelo projeto.

O estudo tipo observacional por meio de inquérito por questionário de forma eletrônica é uma técnica de coleta de dados amplamente utilizada em investigação, particularmente em Educação. Esta metodologia é especialmente adequada para estudos de grande escala, ao permitir ouvir um número significativo de indivíduos sobre um determinado fenômeno social. A principal vantagem do inquérito por questionário reside na possibilidade de quantificar os dados obtidos, o que facilita a realização de inferências e generalizações (Sá; Costa; Moreira, 2021).

A população do estudo foi composta por estudantes matriculados nos três primeiros semestres de três cursos de graduação em Ciências da Saúde: Enfermagem, Educação Física e Medicina, na modalidade presencial da UNEMAT, campus Jane Vanini.

Os critérios de inclusão foram:


O estudo foi divido em três fases: a criação e a implantação de um sistema virtual/online no qual foi colocado o questionário utilizado para a coleta de dados; a coleta em si do dados em duas etapas e a análise dos mesmos. No sistema virtual, organizamos um instrumento composto por um

questionário com questões objetivas, estas caracterizadas por respostas baseadas na experiência pessoal do participante, classificadas por módulos: sociodemográfico e socioeconômicos individual e familiar; hábitos relacionados a alimentação, atividade física, uso de cigarro e/ou tabaco e/ou narguilés e/ou cigarros eletrônicos, bebida alcoólica; percepção de saúde: percepção de saúde nos estudos, problemas de saúde atuais, utilização de serviços de saúde, saúde sexual e reprodutiva, e saúde mental.

Neste mesmo instrumento, foram avaliados, através do Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20 – versão adaptada), dados relacionados ao sofrimento psíquico dos estudantes universitários. Este questionário não descreve um diagnóstico específico, porém o mesmo permite detectar sintomas que possam sugerir a existência ou não presença de transtorno mental. O SRQ-20 é um instrumento de rastreamento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde para identificar TMC em populações, especialmente em países em desenvolvimento. Composto por 20 questões dicotômicas (sim/não), o SRQ-20 avalia sintomas psicossomáticos e emocionais apresentados nos últimos 30 dias, sendo indicado um ponto de corte para suspeita de sofrimento psíquico. Apesar de amplamente utilizado em estudos epidemiológicos e na atenção primária à saúde devido à sua fácil aplicação e baixo custo, o SRQ-20 não fornece diagnóstico definitivo, necessitando de avaliação psiquiátrica complementar. No Brasil, a sua validação demonstrou boa sensibilidade e especificidade, tornando-o uma ferramenta relevante para a triagem de transtornos não psicóticos em diferentes contextos socioculturais (Gomes; Aguiar; Silva, 2023; Gonçalves; Stein; Kapczinski, 2008; Santos et al., 2010).

Para a análise dos dados, as informações foram tabuladas em uma planilha. Em seguida, esta foi importada para o software SPSS. Nele realizamos a análise descritiva, através de métodos estatísticos para organizar e resumir as características mais relevantes do conjunto de dados. A correlação de Spearman foi utilizada para avaliar a relação entre variáveis ordinais, sendo um coeficiente não paramétrico que mede a força e a direção da associação monotônica entre duas variáveis. Para analisar a relação entre variáveis qualitativas, aplicamos o teste do qui-quadrado (χ²) de Pearson, que avalia a independência entre as variáveis. Para melhor compreensão dos resultados, foram geradas tabelas para ilustrar as relações entre as variáveis analisadas.

O Comitê de Ética em Pesquisa da UNEMAT aprovou integralmente o projeto inicial, garantindo que todo o processo de desenvolvimento desta pesquisa estivesse em conformidade com as diretrizes éticas. Este estudo seguiu rigorosamente os princípios éticos da Resolução CNS n.º 466/2012 e da Carta Circular n.º 01/2021, garantindo a aplicação adequada de questionários online. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi elaborado em linguagem acessível e disponibilizado digitalmente, permitindo a aceitação formal antes do preenchimento do questionário.

RESULTADOS

O estudo contou com duas etapas de coleta de dados realizadas em momentos distintos. A primeira etapa foi conduzida com um total de 132 participantes, representando a adesão inicial ao projeto. A segunda etapa foi realizada após um intervalo de dois semestres acadêmicos, período definido com o objetivo de possibilitar a observação de mudanças nos indicadores de saúde física e mental relacionados ao processo de adaptação à vida universitária. Nesta etapa, o número de participantes reduziu para 76 estudantes, sendo importante destacar que se tratava dos mesmos alunos acompanhados desde a avaliação inicial. Apesar disso, as análises realizadas nas duas avaliações mantiveram a integridade metodológica do estudo, permitindo identificar tendências e variáveis relevantes relacionadas ao objeto de pesquisa. Ressalta-se que a avaliação aplicada nas duas etapas foi a mesma, utilizando-se o mesmo instrumento de coleta de dados, aplicado de forma padronizada em ambos os momentos. Essa estratégia metodológica permitiu a comparação longitudinal dos resultados e a análise de mudanças ocorridas ao longo do período de acompanhamento.

A amostra da primeira etapa foi composta por estudantes com idade entre 18 e 40 anos. Observou-se na Tabela 1 o predomínio do sexo feminino (70,5%), menores de 25 anos (81,1%), de cor/raça não branca (66,7%), maioria solteiros e sem filhos (88,6% e 90,9%, respectivamente), sem nenhum tipo de deficiência que os acompanhe (93,9%), e que possuem uma renda familiar de até 4 salários mínimos (75,8%). Os mesmos residem com familiares e no município da universidade (62,1% e 96,2% simultaneamente), e, por fim, 74,2% disseram não estar em atividade ocupacional no período dos estudos. Assim como na primeira etapa, a segunda apresentou percentuais próximos, refletindo respostas praticamente idênticas nos dois momentos da pesquisa. É importante destacar que ambas as etapas foram realizadas com o mesmo grupo de estudantes, permitindo comparação direta entre os resultados.

Quando tratamos da vida acadêmica e estudantil dos voluntários (Tabela 2), observou-se que 87,1% não tiveram nenhuma reprovação durante os semestres avaliados. Ao analisarmos o desempenho acadêmico em relação à sua carga horária diária de estudos, observou-se que a maioria dos estudantes avaliou esse aspecto como de baixa qualidade. Na primeira etapa, 78,0% dos estudantes relataram baixa qualidade na organização da carga horária de estudos e seu impacto no convívio familiar, percentual que aumenta para 82,9% na segunda etapa. De forma semelhante, ao analisarmos o convívio familiar, o tempo disponível, a satisfação com os estudos e com a vida acadêmica, notamos uma baixa intensidade e qualidade em ambas as análises. O que se observou foi que a autonomia nos estudos (alta qualidade 53,0% no primeiro semestre e baixa qualidade

56,6% no segundo) e o conforto no ambiente universitário (alta intensidade 55,3% no primeiro semestre e baixa qualidade 53,9% no segundo) apresentam variações nos percentuais ao longo dos semestres avaliados. No que tange às relações de amizade, ao respeito entre os colegas e os professores no ambiente universitário, verificou-se um elevado nível de intensidade em ambos os aspectos nos períodos analisados.

Ao analisar aspectos relacionados às condições de saúde e ao bem-estar físico (Tabela 3), observou-se que, na primeira etapa, a maioria dos estudantes apresentava um Índice de Massa Corporal (IMC) nos padrões de normalidade (51,5%). No entanto, na segunda etapa, constatou-se um aumento no percentual de estudantes com IMC fora dos limites considerados normais, atingindo 55,3%. Ao questionarmos os estudantes sobre a presença de patologias ou doenças em ambas as etapas, a maioria relatou não possuir condições de saúde diagnosticadas. No entanto, observou-se um percentual, embora de baixa intensidade, de estudantes que afirmaram que a sua saúde tem sido prejudicada pelos estudos, com 82,6% na primeira etapa e 80,3% na segunda. Em relação à automutilação, 94,7% dos respondentes afirmaram nunca ter tentado, contudo, preocupa que 5,3% já relataram ter realizado tal prática. Mesmo que numericamente reduzida, essa proporção é clinicamente relevante, considerando que a automutilação é reconhecida como um importante indicador de sofrimento psíquico e fator de risco para futuras ideações suicidas, demandando atenção institucional e estratégias preventivas (Schwartz, 2004).

Ao analisarmos os aspectos relacionados ao estilo de vida, referente aos hábitos alimentares, constatou-se que, em ambas as avaliações, os estudantes apresentaram um elevado percentual de consumo, tanto de alimentos saudáveis quanto de não saudáveis, com a maioria relatando a ingestão pelo menos uma vez (Tabela 3). Uma parcela considerável dos estudantes dorme menos de 6 horas por noite, com 57,6% na primeira avaliação e 63,2% na segunda. Além disso, verificou-se uma baixa adesão à prática de atividades físicas, reportada por 56,8% na primeira etapa e por 53,9% na segunda (Tabela 3). Ao analisarmos os aspectos relacionados aos comportamentos de risco, constatou-se que, em ambas as etapas, os estudantes relataram não recorrer a cigarros, cigarros eletrônicos, narguilé ou consumir bebidas alcoólicas. No entanto, em relação às práticas sexuais, observou-se que a maioria dos estudantes reportou ter tido ao menos um ou mais parceiros sexuais no último ano, com 86,4% na primeira etapa e 100% na segunda (Tabela 3).

Ao analisarmos os resultados do questionário SQR-20 na Tabela 4, na seção de Sintomas Somáticos, verificou-se que os estudantes relataram a presença de cefaleia (dores de cabeça) em ambos os semestres avaliados. Além disso, no segundo semestre, 53,9% dos estudantes reportaram sofrer de insônia (dificuldade para dormir). Os estudantes apresentaram um elevado percentual de nervosismo, tensão ou preocupação em ambas as etapas, com 82,6% na primeira e 77,6% na segunda. No que diz respeito às variáveis de choro e tristeza, ambos os grupos de estudantes

negaram a sua ocorrência. Contudo, em relação à facilidade para se assustar, observou-se que, no primeiro semestre, a maioria dos estudantes (58,3%) relatou não apresentar esse comportamento, enquanto no segundo semestre a maioria (52,6%) afirmou que se assusta com facilidade.

Ao analisarmos a saúde mental dos estudantes, constatamos que, em ambas as etapas, eles não relataram dificuldades para realizar tarefas cotidianas, nem perceberam as suas atividades ou trabalhos como penosos ou causadores de sofrimento. No entanto, foi identificado que possuem dificuldade em tomar decisões e se sentem cansados com maior frequência e facilidade. Ao analisarmos a seção de pensamentos depressivos do questionário SQR-20 (Tabela 4), constatou-se que a maioria dos estudantes respondeu negativamente a todas as questões, indicando ausência desses sintomas. No entanto, merece atenção ao fato de que uma parcela, ainda que pequena, essa porcentagem é relevante, pois estudos indicam que mesmo níveis baixos de sintomas depressivos em populações universitárias já representam um marcador de risco para sofrimento psíquico. A sensação de incapacidade para desempenhar papéis úteis na vida, a perda de interesse pelas atividades, pensamentos de inutilidade e ideação suicida indicam que, apesar de minoritários, esses sintomas ainda representam um risco de adoecimento mental entre os estudantes.

A Tabela 5, parte A, apresenta os resultados que indicaram que apenas duas variáveis demonstraram associação estatisticamente significativa com a prevalência de sintomas de transtornos mentais:


Os resultados desta análise sugerem que características demográficas, como renda familiar e presença de filhos, podem influenciar a prevalência de sintomas de transtornos mentais entre estudantes universitários. Além disso, as relações acadêmicas, especialmente o respeito dos professores e colegas, desempenham um papel crucial no bem-estar emocional dos alunos. Um ambiente acadêmico que promova o respeito, a autonomia e a satisfação com o estudo está associado a uma melhor qualidade de vida e saúde mental.


DISCUSSÃO

As análises realizadas revelam um cenário complexo e multifacetado sobre a saúde mental, bem-estar físico e acadêmico dos estudantes. Embora a maioria tenha demonstrado resultados positivos em vários aspectos, como a ausência de comportamentos de risco e a realização satisfatória de atividades cotidianas, os dados também indicam áreas de preocupação. Fatores como cansaço frequente, dificuldades em tomar decisões e a presença, ainda que minoritária, de pensamentos depressivos, sugerem a necessidade de intervenções preventivas voltadas para a promoção da saúde mental.

A perda amostral de 56 participantes ao longo do período de estudo ocorreu principalmente em função de evasão, dificuldade de acesso contínuo e indisponibilidade de tempo para participação na segunda avaliação. Ressalta-se que tais perdas são esperadas em estudos longitudinais e foram consideradas nas análises realizadas. Essa diferença no número de participantes reflete os desafios inerentes à manutenção do engajamento em estudos sequenciais e online, especialmente quando há intervalos prolongados entre as etapas de avaliação (Aquino et al., 2013; Castro et al., 2022). A redução pode estar associada a fatores como falta de interesse contínuo, mudanças na disponibilidade dos participantes ou outros fatores externos que impactaram a sua permanência no estudo.

Os resultados apresentaram uma alta prevalência de sintomas de ansiedade, insônia e cansaço entre os estudantes universitários, além de uma pequena taxa, porém preocupante, de automutilação e ideação suicida. Esses achados são semelhantes a pesquisas já descritas na literatura, que evidenciam a vulnerabilidade psicossocial do público universitário frente às

demandas acadêmicas e às mudanças de rotina características dessa fase (Rodrigues et al., 2022; Shimada et al., 2024). Quando tratamos da associação entre a renda familiar e a presença de sintomas de transtornos mentais, os resultados corroboram com estudos que apontam o contexto socioeconômico como determinante importante da saúde mental. Assim, a correlação encontrada parece estar mais relacionada às desigualdades socioeconômicas de forma ampla do que a fatores estritamente vinculados ao contexto universitário, indicando que estudantes com menor renda podem vivenciar menor estresse financeiro, insegurança alimentar e limitação de acesso a recursos de saúde, fatores que ampliam a vulnerabilidade psicológica (Lopes et al., 2022; WHO, 2020).

Embora a maioria dos estudantes da amostra não possua filhos, observou-se que aqueles que acumulam responsabilidades parentais apresentaram maiores índices de sintomas psíquicos quando comparados aos demais. Apesar de representar um grupo numericamente reduzido, esse resultado chama atenção por sugerir que a sobrecarga entre demandas familiares e acadêmicas pode potencializar situações de estresse, fadiga e baixa qualidade de vida. Achados semelhantes foram descritos em um estudo realizado em Salvador, no qual estudantes universitários com responsabilidades familiares apresentaram maior prevalência de TMC quando comparados a seus pares sem filhos (Oliveira, 2022). Por outro lado, verificou-se que o respeito de professores e colegas apresentou correlação positiva com variáveis como satisfação acadêmica, autonomia nos estudos e qualidade de vida. Esse achado reforça a literatura que destaca a integração social e acadêmica como fator protetor frente a sintomas psíquicos. Ambientes acadêmicos colaborativos e respeitosos reduzem sentimentos de isolamento, favorecem o pertencimento e fortalecem a resiliência dos estudantes (Garreto, 2025; Prudencio; Soeiro, 2025).

A análise do estilo de vida revelou que grande parte dos estudantes dormia menos de seis horas por noite e apresentava baixa adesão à prática de atividade física. Esse tipo de comportamento tem sido associado ao aumento do risco de TMC, sobretudo ansiedade e depressão. Estudos sistemáticos apontam que o sono insuficiente e o sedentarismo contribuem para a manutenção de quadros de sofrimento psíquico e piora da qualidade de vida entre universitários (Lopes et al., 2022). Por outro lado, a prática regular de atividade física é apontada como fator protetor da saúde mental, ao contribuir para o manejo do estresse, melhora do sono e regulação do humor (Silva, 2024).

Ainda que a maioria dos estudantes não tenha relatado consumo frequente de substâncias psicoativas, a presença de pensamentos depressivos e ideação suicida em parte, mesmo que pequena, da amostra merece destaque. Esses indicadores são reconhecidos na literatura como sinais de alerta clínico, uma vez que precedem comportamentos autolesivos e podem evoluir para tentativas futuras quando não identificados e acompanhados adequadamente. O risco associado não depende da prevalência numérica, mas da gravidade potencial do desfecho, o que torna essencial a

atenção institucional a esses achados. Em estudo com universitários brasileiros, prevalências semelhantes foram relatadas, reforçando a necessidade de políticas institucionais de apoio psicológico, acolhimento e prevenção do suicídio (Oliveira, 2022; Shimada et al., 2024). Experiências como o Centro de Apoio Educacional e Psicológico da Universidade de São Paulo têm demonstrado eficácia no suporte acadêmico e emocional, servindo como referência para outras instituições (Murakami et al., 2018; Rodrigues et al., 2020).

Os resultados confirmam que a saúde mental universitária é influenciada por múltiplos fatores, incluindo características individuais e condições de vida, mas também aspectos diretamente relacionados ao contexto acadêmico. No âmbito universitário, destacam-se como fatores de impacto: a sobrecarga associada à carga horária de estudos, a elevada proporção de estudantes que relataram saúde prejudicada pelos estudos e o cansaço diário. Esses elementos indicam que a própria organização das demandas acadêmicas constitui um fator relevante de desgaste psicológico. Além disso, a análise de correlações evidencia que variáveis próprias do ambiente universitário funcionam tanto como fatores de risco quanto de proteção. Relações de respeito entre professores e estudantes apresentaram correlações positivas com autonomia nos estudos, satisfação acadêmica e sensação de conforto no ambiente universitário, sugerindo que vínculos interpessoais saudáveis contribuem para melhor qualidade de vida acadêmica. Embora não tenham surgido dados indicando um ambiente explicitamente excludente, os resultados mostram que quanto maior for o respeito e a integração acadêmica, maiores foram os níveis de satisfação e bem-estar, o que reforça a relevância dessas relações como fatores protetores.

Desta forma, através dos achados, torna-se evidente que as instituições de ensino superior devem cada vez mais, ampliar estratégias de promoção de saúde mental, tais como o fortalecimento de programas de apoio psicopedagógico; a implementação de iniciativas voltadas a gestão do tempo e organização dos estudos; a revisão da distribuição e carga de atividades acadêmicas; a ampliação de espaços de acolhimento emocional; além de ações institucionais que promovam relações respeitosas e colaborativas entre docente e estudantes. Por isso, políticas que visem reduzir a sobrecarga, melhorar a comunicação docente/discente e fomentar ambientes acadêmicos saudáveis têm potencial direto de reduzir riscos e fortalecer fatores de proteção à saúde mental dos estudantes.


CONCLUSÃO

O presente estudo evidenciou que a saúde mental de estudantes universitários é influenciada de maneira significativa, embora multifatorial, por aspectos socioeconômicos, relacionais e comportamentais, revelando uma alta prevalência quando se trata de ansiedade, insônia e fadiga. Embora minoritários, a presença de automutilação e da ideação suicida reforçam a vulnerabilidade

psicossocial vivenciada no período acadêmico inicial, em especial quando associamos a condições como baixa renda familiar e responsabilidades dos pais com filhos.

Os resultados apontaram ainda que as relações interpessoais — marcadas pelo respeito de professores e colegas — constituem-se como importantes fatores de proteção, capazes de favorecer a autonomia estudantil, a satisfação acadêmica e a qualidade de vida. Por outro lado, a baixa adesão a hábitos saudáveis, como a prática de atividade física e a manutenção de sono adequado, configurou-se como um agravante para o sofrimento psíquico, em consonância com a literatura nacional e internacional. Esses dados têm implicações diretas para a formulação de políticas institucionais de apoio estudantil. Torna-se imprescindível que as universidades implementem programas de prevenção e promoção da saúde mental que articulem intervenções psicológicas acessíveis, incentivo a práticas de autocuidado e estratégias de fortalecimento da integração social e acadêmica. Experiências sólidas, como os centros de apoio psicológico em universidades brasileiras, reforçam a importância de modelos institucionais de acolhimento e acompanhamento permanente.

Esses achados têm implicações práticas para instituições de ensino superior, sugerindo a necessidade de intervenções que promovam um ambiente acadêmico mais inclusivo e de suporte, especialmente para estudantes com menores recursos financeiros. Isso porque, a renda familiar apresentou associação estaticamente significativa com sintomas psíquicos, assim como aqueles que possuem responsabilidades familiares, como filhos, grupo que também demonstrou maior vulnerabilidade emocional nos resultados da pesquisa. Além disso, políticas que incentivem o respeito mútuo entre professores e alunos, assim como a autonomia nos estudos, podem contribuir para o bem-estar emocional e o sucesso acadêmico dos estudantes. Como, por exemplo, a criação do Centro de Apoio Educacional e Psicológico, o qual é um programa criado em 1990 na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com o objetivo de auxiliar os estudantes na sua formação acadêmica e profissional, além de promover a saúde mental e o bem-estar dos estudantes (Cianflone; Figueiredo; Colares, 2002).

Do ponto de vista científico, o estudo contribui para o campo ao integrar fatores socioeconômicos, relacionais e comportamentais na análise da saúde mental universitária em um contexto específico. Diferentemente de pesquisas que abordam jovens de forma ampla, este estudo destaca a especificidade do ambiente acadêmico, evidenciando como variáveis distintas, como organização das rotinas de estudo, conforto no ambiente universitário (44,7% e 53,9% de baixa intensidade) e satisfação com a vida estudantil (53% e 67,1%), modulam o sofrimento psíquico ao longo do semestre. Dessa forma, oferece subsídios para novas investigações longitudinais que explorem os mecanismos de risco e proteção ao longo do percurso acadêmico.

Conclui-se, portanto, que a saúde mental universitária não pode ser compreendida de maneira isolada, mas como resultado da interação entre condições estruturais e relacionais. As evidências da pesquisa mostram que aspectos como a organização das demandas curriculares, a qualidade das relações interpessoais, o conforto institucional e o apoio pedagógico exercem influência direta sobre o bem-estar dos estudantes. Ao assumir o compromisso com a construção de ambientes acadêmicos inclusivos, respeitosos e promotores de bem-estar, as instituições de ensino superior não apenas favorecem o desempenho acadêmico, mas também contribuem para a formação integral de profissionais mais saudáveis e resilientes.


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CONTRIBUIÇÃO DAS AUTORAS

LKCF concebeu o estudo, realizou a coleta de dados, a análise e a redação do manuscrito. PCOR atuou na orientação, revisão crítica e aprovação final do texto.


AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Universidade do Estado de Mato Grosso pelo apoio institucional à realização desta pesquisa e aos estudantes participantes, cuja colaboração foi fundamental para o desenvolvimento do estudo. Estendemos nossos agradecimentos aos docentes e colegas que contribuíram direta ou indiretamente para a execução deste trabalho. Este estudo contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES), código de financiamento 001.

CONFLITO DE INTERESSE

As autoras declaram que não há conflito de interesse de natureza financeira, política, institucional ou pessoal relacionado a este manuscrito.